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A exigência de algumas profissões pode conduzir a um esgotamento, não só físico, mas mental. Conheça cinco das áreas com maior risco de burnout e algumas formas de o evitar.

Sabia que Portugal é o quinto país em que mais horas se trabalha na OCDE? E, apesar de algumas mudanças positivas nos últimos tempos, são muitos os trabalhadores que manifestam pelo menos um sintoma relacionado com uma condição de esgotamento. O risco de colapso é grande. E o problema vai muito para além da falta de produtividade, é uma questão de saúde.

Apresentamos-lhe uma lista de cinco área com maior risco de burnout e algumas dicas a ter em conta para o evitar.

Trabalho e burnout

Os profissionais de saúde foram dos que mais sofreram durante a pandemia de Covid-19 – que deixou marcas mentais -, mas houve e há outras áreas com grande risco de burnout – quer pela relevância e exigência das tarefas ou a nível social, quer pelas condições que lhes estão inerentes.

A verdade é que há uma ligação direta entre algumas áreas de trabalho e o risco de sofrer burnout. O volume de trabalho, o peso das responsabilidades, o stress e turnos que se prolongam, com pouco espaço para o descanso, estão na lista das principais causas.

Burnout: o que é?

Para quem ainda não está por dentro do tema, interessa perceber, antes de mais, em que consiste o o problema.

O burnout, ou síndrome do esgotamento profissional – doença resultante do stress crónico no local de trabalho – ganhou especial destaque durante a pandemia, sobretudo entre os profissionais da linha da frente de combate à Covid-19.

Em 2022, foi mesmo classificada como doença ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Um reconhecimento que deu lugar a um alerta que, por sua vez, levou empresas e outras entidades a implementar ações promotoras da saúde mental dos seus trabalhadores.

Sintomas e consequências

Trata-se de uma doença com maior prevalência, ainda, entre as mulheres, uma vez que, de um modo geral, sofrem mais de excesso de trabalho devido à acumulação de papéis e respetivas tarefas profissionais, parentais e domésticas.

Porém, pode afetar ambos os géneros, em qualquer idade ou profissão.

O cansaço extremo, a falta de concentração e diminuição de produtividade são alguns dos sinais, mas o burnout não tem impacto apenas ao nível laboral, estende-se também à vida pessoal, comprometendo seriamente a qualidade de vida.

Os sintomas consideram sete importantes níveis. Veja.

Nível físico: problemas gastrointestinais, taquicardia, sensação de falta de ar, tonturas, transpiração excessiva (sudorese), problemas cardiovasculares, enxaquecas, fadiga crónica, tensão muscular com dor, insónia, alterações do apetite, sistema imunitário fragilizado.

Nível emocional: tristeza, apatia, falta de prazer nas tarefas diárias (anedonia), frustração, irritabilidade, sensação de injustiça e de falta de recompensa, ansiedade, depressão ou baixa autoestima, entre outros sinais.

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Nível cognitivo: dificuldade de concentração, lapsos de memória constantes, confusão mental, maior lentidão na execução de tarefas, decréscimo da criatividade, pensamentos persistentes relativamente ao trabalho (ruminações), necessidade de controlo.

Nos comportamentos: impessoalidade, atitude de crítica constante, evitamento, impulsividade e irritabilidade, possível abuso do consumo de substâncias (tabaco, cafeína, álcool, drogas ou medicação).

Nível social: isolamento, falta de empatia, comportamento conflituoso com familiares, amigos ou colegas de trabalho.

Problemas existenciais: conflitos de valores e crenças, necessidade de redefinir prioridades e objetivos, raiva e revolta perante o caminho que a vida está a tomar, alteração da forma como o indivíduo se perspetiva.

A nível laboral: atrasos, absentismo, baixas médicas constantes, maior rotatividade laboral, maior número de erros no trabalho, baixa realização profissional, vontade de desistir e menor produtividade e eficácia.

Os sintomas e consequências do burnout são, pois, físicas e psicológicas, podendo levar a comportamentos de alto risco e até mesmo ao suicídio.

O que mostram os números nacionais?

O burnout é uma realidade bem presente em Portugal.

Um inquérito realizado pelo Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis revela que 50,6% dos trabalhadores nacionais apresentam risco elevado de sofrer burnout, mas cerca de 80% dos profissionais apresentam, pelo menos, um sintoma associado à doença e metade já três sintomas: exaustão, tristeza e irritabilidade.

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Por sua vez o STADA Health Report 2022 revela que mais de metade dos portugueses (57%) dizem já ter estado perto de sofrer um burnout.

Na origem desta doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estará a sobrevalorização do trabalho, em especial o multitasking, o facto de se ficar para além da hora, de atender sempre o telefone e responder aos emails, em suma, o não desligar, remetendo sempre o lado pessoal e familiar para segunda plano.

De acordo com a OCDE, em Portugal trabalha-se uma média de 39,6 horas semanais. Considerando que a lei determina 40 horas semanais, haverá quem passe esse limite, visto que há também quem tenha jornadas mais reduzidas.

Com a pandemia, o teletrabalho impôs-se como solução e ficou, para muito, como opção. O regime de trabalho híbrido (uns dias em teletrabalho e outros no escritório), de acordo com especialistas, está associado a um melhor ambiente de trabalho e é o que mais protege a saúde mental dos profissionais. No entanto, tal não é viável em todas as áreas profissionais.

Apresentamos-lhe cinco áreas de trabalho que apresentam maior risco de burnout.

Comércio

O comércio, nomeadamente os empregados de lojas e supermercados (43%), estão entre os que correm maior risco de burnout, ou esgotamento.

Saúde

Como pudemos perceber durante a Covid-19, devido ao stress causado por todo o contexto associado a longas horas de trabalho, os profissionais de saúde, sobretudo não médicos (39%) constituem uma das principais áreas de risco.

Serviços

O trabalho inerente ao trabalho em serviços administrativos (37%) está também entre os grupos de maior risco de burnout em Portugal.

Ensino

As exigência e a incerteza tão ligadas à profissão de professor, e outras profissões ligadas ao ensino, faz desta uma das áreas onde se regista maior risco (28%) de burnout.

Investigação

A área de investigação é essencial para que o país e o mundo avancem. Porém, os investigadores lidam com grandes desafios, longas horas de trabalho e, também, muitas incertezas e pressão relacionadas com o futuro. A investigação é, assim, uma das áreas de maior risco de burnout.

Certamente que muitas outras profissões, cargos, condições e contextos podem conduzir ao problema.

Como evitar

Como em grande parte dos problemas relacionados com o trabalho (e não só), a aposta passa pela pervenção. Como é algo que leva o seu tempo a manifestar-se, é um processo gradual que se vai agravando, estar atento e a alguns sinais é fundamental para evitar chegar ao limite. Para além disso, é muito importante separar o trabalho da vida pessoal e familiar. É importante seguir um plano de conciliação entre essas três vertentes e gerir o tempo e energia de modo alcançar o equilíbrio. Nem sempre é fácil, é certo, mas é possível e é por um bem maior.

Uma pessoa que não tem tempo para si e para os que mais gosta, não passa tempo de lazer e não descansa, estará a comprometer a sua saúde, física e mental.

Num ranking da OCDE, com base no equilíbrio vida-trabalho que consiste em “ser capaz de combinar compromissos familiares, lazer e trabalho”, Portugal apresenta um equilíbrio de 6,7 em 10.

Dicas a considerar

Durante o horário de trabalho:

  • fazer um planeamento diário das tarefas;
  • definir prioridades e prazos;
  • determinar tempos concretos para cada tarefa e concentrar-se apenas numa de cada vez;
  • evitar interrupções;
  • fazer pausas regulares;
  • estabelecer limites. Aprender a dizer “não” é uma estratégia de defesa.

Fora do período laboral:

  • praticar exercício físico regularmente;
  • socializar;
  • ter hobbies;
  • cuidar da alimentação;
  • ter uma boa higiene do sono (dormir o suficiente, evitar ecrãs na cama);
  • dedicar algum tempo só para si (para meditar, por exemplo).

Pode sempre recorrer a algumas entidades que assumem papeis de especial relevância, quer no que respeita à proteção dos direitos das condições de trabalho, quer na orientação de algumas temáticas que afetam a sociedade, como a saúde mental relacionada com o contexto laboral. Poderá ter em conta, respetivamente, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e a Fundação José Neves.

No limite, peça ajudar

Quanto mais cedo se aperceber de que tem de impor limites e fazer mudanças para evitar um burnout, melhor. No entanto, caso já reúna alguns sintomas que vão piorando, dia após dia, procure ajuda. Fale com o seu médico de família, com um psicólogo ou psiquiatra.

Nem sempre conseguimos fazer que é preciso sozinhos e os especialistas existem, precisamente, para ajudar quando é mais preciso.

Depois de cair num burnout, a recuperação pode ser lenta e difícil. Cuide de si.

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