Por que isso é importante

Esse desalinhamento aparece com força quando olhamos para dados recentes sobre trabalho e formação. O World Economic Forum estima que 39% das habilidades-chave exigidas no mercado devem mudar até 2030. Ou seja, não se trata de uma transição pontual, mas de uma reconfiguração estrutural do que significa estar preparado para trabalhar.

Além disso, o mesmo relatório aponta que 63% dos empregadores veem as lacunas de habilidades como a principal barreira para transformação entre 2025 e 2030. Nesse contexto, não é a falta de diploma que preocupa, mas a ausência de competências aplicadas. Por isso, 85% das organizações afirmam que pretendem priorizar estratégias de upskilling, seja requalificando equipes atuais, seja contratando perfis com novas habilidades.

Quando a régua do mercado muda, consequentemente, a formação que continua treinando apenas execução correta de método começa a entregar menos valor. O estudante aprende a acertar, mas não necessariamente a decidir.

O que está em jogo

Existe uma diferença fundamental entre saber conteúdo e saber decidir com conteúdo. A universidade tende a recompensar a aplicação correta de procedimentos previamente ensinados. Por outro lado, decisões contemporâneas exigem outra camada cognitiva: interpretar contexto, justificar escolhas, estimar riscos, argumentar com base em dados e lidar com ambiguidade.

Esse diagnóstico, inclusive, não é novo para quem contrata. O Job Outlook 2024, da NACE, mostra que as competências mais valorizadas seguem sendo comunicação, trabalho em equipe, pensamento crítico e resolução de problemas. Em comum, todas estão ligadas menos à resposta final e mais ao processo de decisão.

Da mesma forma, a OCDE, ao descrever competências para 2030, define pensamento crítico como a capacidade de questionar, avaliar ideias e soluções considerando o contexto. Em outras palavras, não se trata de saber mais conteúdo, mas de sustentar escolhas em cenários imperfeitos. Assim, quando a universidade não treina isso de forma sistemática, o estudante aprende a performar bem para a avaliação, mas depois encontra dificuldade quando precisa decidir fora do script.

Como responder a esse desafio

A resposta mais consistente não está em abandonar o que funciona nem em transformar todo curso em projeto prático. Na prática, o ajuste mais eficaz é conceitual: tratar decisão como competência treinável, e não como consequência automática do domínio de conteúdo.

Isso pode acontecer com mudanças simples, mas estruturais. Avaliações que exigem justificativa, comparação de estratégias, análise de erro como parte do processo, leitura de dados em contexto e tarefas em grupo que envolvam negociação de critérios. Dessa forma, o foco deixa de ser apenas chegar à resposta certa e passa a ser demonstrar qualidade de raciocínio.

Nesse ponto, inclusive, tecnologias educacionais e ferramentas de IA podem ajudar, desde que usadas com critério. Elas permitem simular cenários, gerar contraexemplos, testar consistência de argumentos e pedir explicações. Assim, a ferramenta não decide pelo estudante. Ela aumenta a frequência do treino de decisão.

O que você precisa saber
  • O World Economic Forum estima que 39% das habilidades-chave do trabalho mudarão até 2030.

  • 63% dos empregadores apontam lacunas de habilidades como grande barreira à transformação entre 2025 e 2030.

  • 85% das empresas pretendem priorizar estratégias de upskilling nos próximos anos.

  • Empregadores seguem valorizando comunicação, trabalho em equipe, pensamento crítico e resolução de problemas.

  • A OCDE define pensamento crítico como avaliar ideias e soluções considerando contexto, risco e consequência.

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