Nunca houve tanto material disponível para estudar. Ainda assim, muita gente segue travando antes de aprender de verdade. O gargalo raramente é falta de conteúdo. Na prática, ele costuma estar na ausência de autonomia intelectual, a capacidade de escolher um caminho, sustentar atenção, testar entendimento e corrigir rota ao perceber que não aprendeu.
No Brasil, esse problema aparece em um dado simples e duro. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional, 29% da população entre 15 e 64 anos é considerada analfabeta funcional. Não se trata apenas de “ler e escrever”, mas de ter dificuldade para compreender e usar informações no cotidiano. Além disso, entre os jovens, o cenário é ainda mais preocupante. Dados divulgados pela Agência Brasil mostram que o analfabetismo funcional na faixa de 15 a 29 anos passou de 14% em 2018 para 16% em 2024. Esse avanço ajuda a explicar por que tanta gente até começa a estudar, mas não consegue sustentar o processo.
Por que isso é importante
Autonomia intelectual não é traço de personalidade nem dom individual. Pelo contrário, é um conjunto de processos treináveis. Definir objetivos, planejar o estudo, monitorar a compreensão, ajustar estratégias e se autoavaliar fazem parte do que a literatura chama de aprendizagem autorregulada, conceito amplamente desenvolvido por pesquisadores como Barry Zimmerman.
Quando esses processos falham, o estudante faz o que está ao alcance. Em geral, pula de material em material, confunde familiaridade com entendimento e mede progresso pelo tempo investido, não pela clareza construída. Com isso, o estudo parece intenso, mas produz pouca consolidação.
Há evidência de que trabalhar essa autonomia melhora desempenho. Nesse sentido, uma meta-análise sobre intervenções de autorregulação em contextos online e híbridos encontrou efeito positivo moderado na performance acadêmica. Esse achado importa porque a rotina real de estudo hoje já é, na prática, híbrida. Vídeos, PDFs, plataformas digitais, mensagens, resumos e ferramentas de IA convivem no mesmo fluxo.
O que está em jogo
Quando a autonomia é baixa, o estudante se torna refém do formato. Se o conteúdo vem organizado, ele avança. Por outro lado, se vem aberto, ele se perde. Assim, cria-se uma dependência não do tema, mas do roteiro.
Ao mesmo tempo, em um cenário em que ferramentas de IA tornam cada vez mais fácil acessar explicações e resumos, a diferença deixa de estar em “ter informação” e passa a estar em saber o que fazer com ela. A IA pode acelerar a entrada no conteúdo, mas não decide o que é prioridade, o que precisa ser revisado ou o que foi apenas reconhecido, sem compreensão real.
No plano coletivo, isso também pesa. Se uma parcela relevante da população apresenta dificuldades de alfabetismo funcional, como mostram os dados do INAF, a discussão sobre aprendizagem não pode se limitar a produzir mais conteúdo. Nesse contexto, a questão central passa a ser como formar pessoas capazes de navegar informação, construir critério e sustentar raciocínio ao longo do tempo.
Como responder a esse desafio
O caminho mais sólido não é proibir ferramentas nem romantizar o “estudar na marra”. Em vez disso, é tornar a autonomia um objeto explícito de ensino e de rotina.
Na prática, isso significa desenhar o estudo em torno de três movimentos simples: objetivo claro, verificação ativa e ajuste. A literatura sobre autorregulação descreve exatamente esse ciclo. Além disso, em ambientes digitais, ajuda substituir parte da leitura passiva por checagens curtas. Explicar com as próprias palavras, formular perguntas e tentar resolver antes de consultar.
É nesse ponto que a IA se torna aliada. Não como substituta do raciocínio, mas como ferramenta para testar entendimento, gerar exercícios e oferecer feedback. Portanto, o volante continua nas mãos do estudante.
O que você precisa saber
O INAF estima que 29% da população brasileira entre 15 e 64 anos seja analfabeta funcional.
Além disso, entre jovens de 15 a 29 anos, o índice subiu de 14% para 16% entre 2018 e 2024, segundo a Agência Brasil.
Autonomia intelectual é composta por processos treináveis, como planejar, monitorar, ajustar e avaliar.
Meta-análises indicam que intervenções em aprendizagem autorregulada têm efeito positivo moderado em contextos online e híbridos.
Portanto, com a presença da IA no estudo, o diferencial não é acesso, é critério e verificação ativa.